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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Caça

Isto deve ser um sonho!
Fui considerado ontem por minha tribo um homem, e esta noite já me dão a oportunidade de ser tido como um caçador.
Nos últimos três dias, corpos de irmãos da minha e de outras tribos vem sendo encontrados, e estou no grupo para caçar o que está fazendo isto.
No mesmo grupo estão os melhores dentre todos.
Os gêmeos Mero e Moru, imbatíveis com faca e o tacape; Amã, o caçador que sozinho abateu um grande urso com sua lança; Thae, um pardal a trezentos passos de distancia não estaria seguro contra seu arco.
E Khal... o maior caçador de minha tribo, mesmo sendo apenas cinco estações mais velho do que eu.
Ele lutou ao menos em duas dúzias de batalhas e jamais foi ferido em alguma delas. Já enfrentou só com os punhos um guerreiro com lança e saiu vitorioso.
E está para se casar com Maaka, a filha do chefe e a mais bela mulher em que um homem já pôs os olhos, a mais doce das pessoas, sempre solicita para com quem precise dela, e minha amada irmã caçula.
É engraçado, é quase preciso ameaçar Khal com uma lança para que ele conte sobre seus feitos, mas acho que mesmo que todos nós apontássemos nossas armas para ele, não conseguiríamos fazer ele parar de mostrar o pingente de pedra azul que ela lhe deu.
E mesmo com toda esta energia, ele está pálido e suando muito, talvez fruto do corte causado pela garra de um lobo que enfrentou um ciclo de lua atrás.
Mas mesmo enfermo, me sinto mais seguro com ele aqui.
Após caminharmos um quarto do tempo necessário para a lua fazer seu percurso, chegamos a uma clareira próxima ao lugar dos ataques.
Cada um se ocupou a seu modo. Amã assava um pedaço de carne na fogueira, Thae verificava suas flechas, Khal se encostou em uma arvore e fechou os olhos, Mero e Moru tratavam de discutir quem ficaria com a cabeça de nossa caça, eu me limitava a treinar com a lança.
 - Vai acabar furando o olho de alguém com isso, sente e descanse, assim que comermos o resto da noite é corrida. – Amã disse para mim.
 - O que é isso Amã! Deixe o jovem praticar, ao menos ele não fará como você em sua primeira caça noturna. – Thae respondeu com um sorriso de escárnio.
 - O que ele fez? – Eu perguntei, mas só depois percebi as faíscas de ódio nos olhos de Amã.
 - Não te diz respeito! E você cale a boca Thae!! – Amã disse alternando o olhar entre Thae e eu.
 - Fomos caçar um gato gigante, quando o encontramos Amã estava tão nervoso que só de ver o bicho já arremessou a lança... com a ponta virada para o outro lado.
Todos menos Amã riram, em outras circunstancias ele chamaria cada um para briga por isso, mas nesta noite se limitou a amaldiçoar.
Pouco depois Khal se levantou e caminhou em direção as árvores para sair da clareira.
 - Está indo onde Khal? – Moru que foi o primeiro a notar perguntou.
 - Fazer um reconhecimento.
 - Ah, pensei que estava indo aliviar a dor de estomago. – Comentou Meru
A resposta veio na forma de uma pedra sendo atirada por sobre a cabeça dos dois.
A carne ficou pronta, comemos mas Khal não voltou.
Decidimos então que apagaríamos a fogueira e iniciaríamos a caçada assim mesmo.
Fui até o fogo, e quando me preparava para chutar terra sobre a fogueira, ouvimos o rosnado.
Todos de imediato viraram a cabeça para o lado de onde veio o som.
Por entre as árvores víamos nas sombras duas brasas flutuando a dois metros do chão.
Todos pegaram suas armas enquanto as brasas desciam a meio metro do chão e ouvíamos junto com o rosnado o som de algo pingando.
Thae disparou sua flecha e de imediato a criatura pulou cinco metros para o alto.
Era o maior lobo que jamais vira, ao menos dois metros de estatura e corpo forte.
Ele aterrissou bem no meio de nós. Assim que tocou o chão, correu em direção a Thae.
Ele teve tempo apenas de pôr outra flecha na corda antes da mandíbula do animal se fechar sobre sua garganta.
Em seguida disparou sobre os gêmeos. Mero preparou sua faca e aguardou o animal pular sobre ele para cravar a arma em sua garganta.
Mas, quando há um metro de Mero, o lobo parou, e desferiu um golpe com a pata esquerda vindo do chão, o golpe não atingiu Mero, mas a terra que veio junto entrou em seus olhos, o impedindo de ver a pata direita que retalhou seurosto.
Mas este golpe abriu a guarda da criatura para Moru, que pulando pela direita desceu a clava... até a pata direita assustadoramente parecida com uma mão humana, que segurou o golpe.
Naquele momento senti meu sangue congelar enquanto eu via a criatura com sua mão esquerda agarrar a cabeça de Moru e esmagá-la, mas o que quase me fez cair de joelhos, foi o lindo pingente com uma pedra azul no pescoço do animal.
Amã deve ter visto o mesmo que eu, pois naquele momento arremessou com um grito sua lança.
A arma descreveu um trajeto em linha reta até a cabeça do animal, que por reflexo pôs a mão na frente, tendo-a atravessada, soltando um uivo audível ao longe.
Mas a mão impediu que a lança chegasse a cabeça, e enquanto a criatura partia com os dentes a outra lança, a minha vibrava em minha mão.
A criatura caminhou até Amã sobre duas patas, e eu em um ato de desespero, arremessei minha lança para ele, que tirou os olhos da criatura para poder ver a arma chegando, mas nessa distração, as garras do monstro subiram, separando Amã de seu braço esticado para pegar a arma.
Estava tudo acabado, eu estava só e desarmado contra o campeão de minha tribo que se tornara um monstro, que derrotara quatro dos melhores caçadores armados e que agora… eu via entrando na clareira de lança na mão erguendo as calças.
Não era Khal o monstro! Só de saber isso eu já tinha vontade de gritar de alegria.
Khal ao ver os restos de seus colegas mortos urrou e correu até a criatura que estava de costas para ele, enquanto isso eu corria até o arco de Thae, a arma mais próxima de mim, fora a lança aos pés do monstro.
Enquanto corria eu me perguntava quem seria a criatura transformada. A resposta veio a mim ao mesmo tempo que a Khal quando ficou de frente para o lobo bípede.
 - Maaka… - Ele disse parando e ficando muito pálido.
Minhas mãos tremiam enquanto agarrava uma flecha, e quase sem forças eu empunhava o arco.
Maaka agora se aproximava de Khal que ainda parecia tentar compreender o que se passava.
A criatura se aproximava muito lentamente, o que me fez crer que ainda havia algo de minha irmã naquela abominação. E foi esta certeza que me fez hesitar e quase errar a flecha que disparei.
O alvo era o ponto das costas onde fica o coração. Contudo o tremor causado pelo que vi e por saber que estava prestes a fulminar minha irmã fez as mãos perderem força e precisão, atingindo-a no ombro.
Ela se virou para mim e urrou, eu via em seus olhos apenas ódio e o desejo de destruir aquele que a feriu.
O mais rápido que pude coloquei uma flecha no arco, mas não pareceu ter sido rápido o suficiente, pois Maaka já avançava de quatro ainda que evitando se apoiar no braço ferido.
Maaka já estava quase sobre mim quando Khal pulou sobre as costas dela, derrubando-a no chão, seu olhar era claro: Corra!
Tão rápido quanto minhas pernas permitiam corri até a fogueira  e retirei um galho em chamas, no mesmo momento Khal era arremessado ao ar enquanto Maaka se levantava lentamente por causa do braço.
Eu sabia que tinha poucas chances de sobreviver se fugisse, e menores ainda se ficasse e lutasse, cabia a mim então decidir se ao menos eu morreria como um homem.
É heróico dizer “morrer como um homem” discutindo uma situação dessas o que mais chama a atenção é “como um homem”, mas quando se vive se precisa fazer a escolha, só existe “morrer”.
Assim, eu corri, não me orgulho de tal escolha, mas não me arrependo dela igualmente. Aparentemente, Khal também não, pois não demorou, estava correndo ao meu lado.
Aos nossos ouvidos ressoavam os passos de Maaka, que tinha de se mover sobre as duas pernas, graças ao ferimento que causei, e isso me encheu de esperança, pois um lobo não correria mais rápido que um homem em duas pernas.
Para minha infelicidade, não estávamos correndo de um lobo. Assim, o andar de Maaka em duas pernas não era muito diferente do nosso. O que começou com uma caçada para nós, passou a ser uma luta pela sobrevivência e agora um teste de resistência.
Nossas únicas armas eram o arco e as flechas que eu peguei, mais uma faca de cada um.
 - Se continuamos nessa corrida, não teremos forças para lutar quando formos alcançados. – Khal disse emparelhando comigo.
 - E o que sugere? Eu pessoalmente não estou muito a vontade com a idéia de lutar, e pouco tem a ver com o fato de ser minha irmã e você já que está aqui também não possui essa vontade.
 - Não sabemos se é… - Ele disse com um olhar duro, mas se calou ao perceber que nenhum de nos acreditava no que ia dizer.
 - Acha que nós dois conseguiríamos detê-la? – Perguntei, ainda na dúvida se teria a coragem para isso.
 - Atrasá-la. Talvez o bastante para o outro chegar ao rio e fazê-la perder a trilha.
Eu o olhei, não restava dúvida de que ele tinha razão, mas por que ele estava comentando isto? Ele tinha esperanças de me convencer a ficar? Ou queria o arco para a luta?
 - Eu tenho uma irmã sabia? – Ele disse.
 - Eu sei. Somos da mesma tribo. – Eu disse com uma ponta de raiva, que ele pareceu não ter percebido, pois riu.
 - Sei disso. Por isso queria te pedir um favor…
Era esse o momento. Ela era minha irmã, então eu que cuidasse dela! Afinal ele tinha a dele para proteger. O sangue me subiu pelo rosto.
 - …será que você tem como mandar um recado para ela pra mim? – Ele disse, com um olhar assustado. E eu humilhado virei o rosto e fiz que sim com a cabeça.
 - Diga que… eu sinto por deixá-la sozinha, e que conto que ela seja feliz. – Ele com um sorriso melancólico.
 - Khal… é minha irmã eu acho que…
 - Não seja idiota garoto, você não duraria dois minutos. A noticia tem que chegar na tribo, esse é seu trabalho, até porque ela é sua irmã, e saber disso te torna menos adequado ainda para outro.
 - Você vai morrer e deixar uma irmã pra trás?
 - Isso é problema meu com os espíritos dos meus pais. Trate você agora de cumprir com a sua parte. – E ao dizer isso ele sacou a faca e parou.
Eu corri, e corri o quanto pude, atravessei o rio, e alguns morros, sem em momento algum ouvir os passos de Maaka, quando acreditei estar seguro, parei para me recuperar.
Sentei-me enquanto os pulmões queimavam, e o ar com muito esforço entrava em meu peito, apenas por reflexo levei a mão as flechas, para descobrir que na corrida, quase todas haviam caído.
Meu coração naquele momento quase parou. Quais as chances de isso ter acontecido aos poucos e uma trilha ter se formado?
Um rosnado em uma parodia a uma risada me veio como resposta. Eu fiquei de pé e pus minha penúltima flecha no arco. Enquanto no topo dos galhos um par de brasas me observava.
Eu estava cansado, sabia que agora eu era a caça, eu ia ser devorado, mas decidi… ao menos ia causar uma indigestão.
Os olhos mal se moviam, assim como o meu braço com a flecha no arco. Agora era uma questão de paciência, meu pai perderia um filho ou filha essa noite, tudo dependia de uma flecha.
Um galho estalou, e no mesmo instante ela saltou das copas sobre mim, e minha flecha saltou do arco em direção a ela.
Tudo não demorou mais do que um segundo, não havia porque demorar mais. A flecha entrou, de encontro ao coração, não fui eu a presa.
Isso foi um ciclo de lua atrás. Fui aclamado como herói, sou chamado agora de caçador após ter conseguido me arrastar do lugar onde tudo ocorreu até próximo o suficiente da aldeia para ser encontrado.
Eles não sabem o que houve lá alem do que contei. Só que algo mau levou a vida de vários bravos e de minha irmã. Que todos lutaram bravamente, que Khal se portou como um homem e se sacrificou, e só por isto estou vivo.
Para que lhes dizer mais do que isto? Palavras são vazias quando os olhos recebem provas suficientes. E eles não precisarão de mais provas, pois hoje é noite de lua, e eu sou um caçador, assim como minha irmã. E logo minhas presas saberão disso.

By Chronic

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