A morte da humanidade
Capitulo 1: Bored
Nome: Allan
Idade: 21 anos
Ocupação: Estudante de Direito/Estagiário de Fórum
Situação atual: Há 5 segundos de virar mingau para zumbi
“Como isso ficou assim?” eu penso. Até uma hora atrás eu implorava por uma quebra na monotonia, agora, nada me alegraria mais que voltar para aquela maldita pilha de processos cobertos de ácaros.
Enquanto olho para o ser com aparência humana com partes do corpo faltando, que de mandíbula aberta ruma em minha direção, minha mente divaga voltando ao inicio do dia.
Acordei bem disposto, pois decidi não ficar acordado para acompanhar a maratona de filmes do Romero que passou na TV a cabo na noite anterior.
Segui a mesma rotina de todas as manhãs de tomar café, passear com o cachorro, tomar banho, almoçar e ir para o estagio.
Por mais pacato que eu fosse, esse dia-a-dia me irritava, sempre desejei ver e até participar de algo memorável… se soubesse que ia ser atendido...
Peguei o trem e o ônibus como sempre fiz. Desci na Sé e caminhei o quarteirão até o Forum João Mendes Junior.
Peguei o elevador e corri até a sala, rezando para o Dr. Se atrasar. Sentei na cadeira e cumprimentei a Noemi, a escrevente. Boa gente, espero que tenha tido mais sorte que muita gente nesse dia.
Antes de começar a ver os processos dei uma olhada no site de noticias que acesso.
Só se via coisas sobre surto de violência na cidade, uma doença se espalhando que tornava as pessoas agressivas, questionamentos sobre a posição das autoridades. Ri enquanto meneava a cabeça. “São Paulo é um zoológico.” Pensei.
Até metade do expediente tudo foi calmo, até que ouvi a porta da sala do juiz ao lado se escancarar. Ouvi a voz do juiz, um coreano de 1,90m perguntando o quer era isso, quem a pessoa pensava ser para entrar na sala dele assim.
O invasor era um homem de meia idade, com um bom terno, ele caminhava devagar e de forma vacilante. Olhei, o cara era anormalmente branco, na hora achei que fosse o trabalho de escritório, ou fosse algo que ele viu do lado de fora. Agora eu penso que deve ter mais a ver com o buraco de 20 cm que ele tinha na coxa esquerda.
A escrevente daquela sala, uma loirinha gentil o suficiente para me tolerar recuou um passo, e pegou uma sovela. O tipo pálido se aproximou dela com a boca escancarada suja de sangue, ela se encolheu assustada, mas ao ver que ele continuava vindo, por instinto ela o estocou com a haste, atingindo-o no ombro direito.
A sovela entrou até o cabo sem que ele esboçasse qualquer dor, o homem continuou avançando, foi quando intervi, dando um pulo e chutando as costelas dele, fazendo-o cair de lado desequilibrado. Percebi que não vertia sangue do local que ela feriu, mas não pude analisar mais que isso, pois a porta da sala onde eu trabalhava também foi abruptamente aberta.
Era um tipo em iguais condições, salvo pelo buraco ser na traqueia e não na perna. Diante daquilo, fiz a única coisa que se esperava que um homem de verdade fizesse. Corri como o Diabo.
Pulei a mesa do juiz e cheguei ao sétimo oficio. Todos estavam no balcão, tentando tirar uma mulher de cerca de 30 anos de cima do escrevente chefe. Se não fosse a seriedade e a adrenalina, eu teria parado para assistir aquela cena cômica e obscena.
Mas não era hora para comedia, corri até a guilhotina e arranquei da base a lâmina do objeto. Aquilo era um facão perfeito com seu cabo e lâmina de meio metro.
Corri até o monte de gente e desferi uma cutelada nas costas da mulher, sem sangue, sem dor. No desespero tentei novo golpe visando o mesmo ponto, mas atingindo o topo da cabeça da mulher que estava enfiada na barriga do pobre escrevente, ela ficou inerte, assim como ele.
Capitulo 2: Caminho dos mortos
Respirei e saí de lá pelo balcão, minha preocupação eram meus pais e irmãs, portanto enquanto na mão direita segurava minha arma improvisada, com a esquerda disquei para casa.
- Mãe! Acabaram as vagas no inferno e tão mandando o pessoal de volta! – Eu disse ao telefone enquanto caminhava para os elevadores.
- O que filho? – Ouvi minha mãe responder.
- O mundo pirou! Enfia a anãzinha no carro e vai pra casa do vô!
Houve apenas silencio na linha.
- PeloamordeDeus, só desta vez faz o que eu estou dizendo! – Falei enquanto golpeava o pescoço de uma dessas coisas. Ouvi um suspiro e minha mãe desligando.
Ia ligar para minha irmã mais velha quando parei diante dos elevadores, percebi que me enfiar em uma caixa de metal com uma única saída não deveria ser minha primeira escolha.
Forcei o cérebro boiando em adrenalina a funcionar. Havia uma escada de serviço que eu podia usar, era estreita e quase ninguém usava, não deveria ter muitas dessas coisas lá.
Pegando o caminho que levava a ela encontrei outra daquelas criaturas, era um estagiário de escritório de advocacia, devia ter minha idade, se não fosse mais novo. Dei com minha arma de chapa em sua têmpora direita, não conseguia ainda dar um golpe letal em uma pessoa, ética que meu oponente se beneficiou. Após dar um passo para o lado com o impacto, ele tentou me agarrar, aparentemente só as pernas ficaram lentas, pois ele movia o corpo em velocidade vertiginosa, agarrou meu braço esquerdo e me puxou para perto, senti seu toque frio que prenunciava a morte, enquanto o cheiro de sangue vindo de sua boca chegava a meu nariz.
O que se passou em seguida não sei se foi um segundo ou um minuto, mas golpeei novamente com a chapa da lâmina seu rosto, fazendo-o pender para esquerda, quando puxei novamente meu braço, seu equilíbrio ruiu. Caído, pus a sola de meu sapato em seu braço e puxei, fazendo com que soltasse meu punho, ainda que as custas de arranhões.
Corri pelas escadas, com o braço ardendo, pulmões explodindo, e para meu horror, um celular faltando. Já havia descido três andares, não me encontrava disposto a voltar.
Correndo desci os lances de escada remanescentes, saí na parte de trás do fórum.
Ao ver a luz do sol e sentir o vento batendo em mim, me forcei a me acalmar. Eu devia pegar o metrô e ir para casa?
Não! Se o fórum tinha uma densidade zumbigrafica daquelas, o metrô Sé deveria estar parecendo um baile funk no inferno.
A melhor idéia era arranjar um lugar para me esconder e quem sabe uma arma melhor, afinal, sem o trem, as únicas opções eram ir guiando, coisa que não sei fazer mesmo que arranjasse um veículo, e andando, o que não era uma perspectiva agradável, dado os quase trinta quilômetros.
Optei por ir até a Liberdade, que era há cerca de cinco minutos na corrida, e se tinha algum lugar onde poderia achar algo útil, era lá.
O percurso foi relativamente calmo. Essas coisas não reagiam enquanto estivessem comendo, e eu não fazia questão de ficar cutucando.
Cheguei a uma galeria pequena, ainda que profunda, eu em minhas andanças sabia que no terceiro andar havia uma loja de artes marciais, e eu estava disposto a sair com quantas armas desse pra carregar.
Diferente da fuga do fórum, agora eu teria de subir escadas, nunca pratiquei artes marciais, mas conhecia o principio que ter o inimigo em um ponto mais alto que você era uma desvantagem e tanto, assim optei pelo elevador.
Assim que as portas metálicas se fecharam, me escorei na parede, apertei o botão que interrompia a viagem e tentei pôr meus pensamentos em ordem.
- O mundo acabou de virar de ponta cabeça, por mais que eu me recuse a acreditar, essas coisas parecem com zumbis, andam como zumbis e são bem relutantes em morrer.
- Já notifiquei minha mãe, minha irmã trabalha em uma venda de ferragens, se ela não adestrou os zumbis com o jeito dela, ao menos ela deve estar melhor guarnecida que eu. Meu pai? Haha, estou com dó do zumbi que entrar no caminho dele, se conseguiu chegar no carro, está a meio caminho de casa.
- Pois bem, estou sozinho, em terreno hostil, com um acessório de escritório como arma. Tou no jogo há cinco minutos e já estou no hard!
Apertei o botão para que as portas abrissem, e respirei fundo já me preparando para na melhor das hipóteses uns cinco daqueles troços se jogando contra mim.
O andar estava relativamente vazio, exceto por um punhado de cinco zumbis, indo em direção a um homem, provavelmente em garçom, na casa dos 40 que fazia no chão um circulo com sal grosso. Para a infelicidade dele, não eram zumbis vudu, assim a única coisa que ele conseguiu foi estar bem temperado antes de morrer.
Voltando minha atenção para o lado da loja de artigos marciais, vi a vendedora sendo agredida por um tipo pouco mais baixo que eu, mas definitivamente mais musculoso, ele estava prestes a com uma das facas da loja matá-la. A distancia era de ao menos uns cinco metros.
Ainda que minha pontaria fosse horrível, eu só tinha uma opção, correndo em direção aos dois, arremessei minha arma.
Pude acompanhar cada volta que a lâmina dava em seu percurso. Passando em frente ao rosto de meu alvo, abrindo um talho em seu braço direito, e em seguida, continuando seu percurso até a vitrine e despedaçando-a.
Ainda que não tenha visto, pude sentir a atenção dos cinco se voltarem para nós.
Entrei em uma loja que vendia DVDs enquanto via quatro dos cinco passarem pelo corredor em direção a presa abatida, enquanto o quinto caminhava em minha direção.
Vi que diferente do primeiro, aquele que invadiu o fórum, este caminhava, ainda que não corresse, seu andar não era arrastado e claudicante. Agora percebo que o do fórum era a exceção, e não a regra.
Sabia que um jogo de corpo seria pular nos braços da morte, e que usar a TV que exibia algum desenho acima de mim, se desse tempo seria particularmente barulhento.
Sem tempo ou melhores idéias, optei por ambos, usando a TV como escudo, corri na direção do ser. Me choquei com ele, fazendo a tela de 20 polegadas rachar, e consegui jogá-lo para fora da loja, fazendo-o atravessar uma vitrine enquanto corria na direção dos quatro que se esbaldavam nos corpos da vendedora que tentei salvar e seu agressor, estes ao ouvirem o impacto do eletrônico com o chão e o som de vidro se partindo, se levantaram.
Antes que pudessem fazer qualquer coisa, consegui alcançar duas peças do mostruário, um virote de besta e uma faca militar.
O virote encontrou e encerrou sua utilidade ao penetrar o globo ocular do primeiro, enquanto a faca se alojava entre os olhos do segundo.
Como ultimo milagre, consegui retirar a faca do crânio deste e enfiá-la dentro da boca do terceiro, enquanto o quarto e ultimo já se aproximava de boca aberta.
Capitulo 3: Óbito
De volta ao presente, acompanhava de guarda aberta enquanto o ser com uma camisa preta com uma daquelas piadas escritas nela avançava sobre mim.
Estava certo que meu destino estava selado, quando um virote de besta passa zunindo por meu ouvido e indo se alojar na cabeça de meu agressor.
Olhando para a parte mais interna da loja, encolhida em um canto, segurando uma besta, uma oriental de aproximadamente 17 anos. Vendo que ela tremia, e o quanto, presumi que ela mirou em mim a título de golpe de misericórdia e acabou por errar.
Curvei levemente a cabeça em agradecimento, dei alguns passos em direção a ela, que de imediato começou a recarregar sua arma com os olhos assustados virados para mim. Balancei negativamente a cabeça.
- Mesmo que eu tivesse qualquer intenção de fazer algo com você, não acha que seria muita ingratidão depois de você me salvar?
Caminhei até uma prateleira onde eram expostas espadas. Ouvi uma respiração mais forte, sabia que ela voltara a mirar.
- Estar desarmado atualmente é uma coisa ruim, só vou pegar emprestado alguns produtos. – Dizendo isso, passei a katana pela tira de pano da calça onde fica o cinto.
Ambos ouvimos um som gutural à porta, lá estava o quinto zumbi, aparentemente uma TV na barriga e atravessar uma vitrine não eram dano suficiente para pará-lo.
Vi mais um virote ser disparado, atingindo o peito da criatura. “Acho que ela sabe usar esse troço.” Pensei. Infelizmente um virote atravessando o peito só era suficiente para levar ao chão, não para mantê-lo lá, já que de imediato começou a se levantar.
Com um misto de asco e alivio, vi que um golpe com força na cabeça resolvia tal problema.
Me encarreguei, ainda sob o olhar desconfiado da garota, de me armar satisfatoriamente com uma espada de kendô, a já dita katana, e três facas escondidas no bolso interno do casaco e dentro das botas convenientemente adquiridas do agressor da vendedora.
Dando um passo para o lado de fora da pequena loja, olhei para dentro onde a garota, de jeans rasgado e camisa branca com alça permanecia encolhida no canto do cubículo, olhando para os corpos estirados, paralisada pela compreensão de seus atos e das circunstancias, compreensão essa que ainda não tinha me alcançado.
- Já vi que você é perigosa com isso na mão. Mas não acha melhor sair daí antes que a munição acabe ou você morra de fome?
Ela não se moveu, sequer piscou. Me afastei admirando-a, pois se não conseguiu manter a sanidade, ao menos conservou a dignidade de não se entregar ao desespero histérico.
Caminhei até as escadas, preferia não apostar duas vezes no elevador. Quando estava a dois passos do primeiro degrau de descida o tempo congelou.
Subindo a escada, um jovem na casa dos 15, pele mascava, fartos cabelos encaracolados, seguido por uma garota de pele clara, cabelos crespos e bochechas proeminentes, se dirigiam a mim emitindo o característico som gutural.
Era Felipe, o baterista do grupo de louvor da igreja que freqüentava, acompanhado de uma garota cujo nome não me recordo, mas também do dito grupo.
Meus pés imediatamente se cimentaram no chão, o ar ficou preso dentro de mim e podia sentir meu sangue correndo por meu corpo, inundando cada músculo, dando forças aos braços que brandiam a espada até o maxilar do rapaz, e movendo os músculos de meu rosto formando um sorriso de profundo gozo.
Pude sentir pela madeira os ossos partindo enquanto o pescoço também emitia um som de trituração.
16:47, é a hora do óbito do meu lado humano, fulminado pela minha compreensão deste novo mundo, e afogado pelo prazer que sentia ao exercer minha nova função neste.
Lu
Vou ser franco, é uma experiência difícil de classificar esse negocio de atropelamento, a sensação de gravidade zero é relaxante, e o panorama dos poucos segundos de vôo é de tirar o fôlego. Infelizmente, a aterrissagem onde você sente os ossos quebrando e sua boca se enche com o gosto de asfalto estraga tudo.
Depois disso, o que me lembro é de sentir seus cabelos roçando meu rosto e o hálito adocicado de menta.
- Acordou? Vó Palmira vai ficar feliz. – Ela disse com um sorriso uma garota ruiva de cabelos ondulados caindo até as espáduas.
- Vó?! Quanto tempo apaguei? – Eu disse já apavorado com a idéia de olhar no espelho e ver um quarentão.
- Só três necessárias horas, tempo suficiente para sua mãe me conhecer e eu chegar a conclusão que você teria uma reação bem divertida a esse trote. – Ela disse sentando-se na cama onde eu estava deitado.
- Mas foi bem melhor que o previsto. – Acrescentou baixando um pouco a cabeça e dando um sorriso de canto de boca.
- Bem imaturo da sua parte judiar de um acidentado.
- Imaturo pra idade? Quantos anos você me dá? – Ela disse levantando-se da cama e dando um voltinha. Nesse momento não soube bem responder. A estatura era a de uma adolescente, o cabelo ligeiramente despenteado demonstrando falta de vaidade, e as sardas abundantes abaixo dos olhos lhe davam um ar infantil, a voz era miada, provavelmente tentando ser meiguinha, mas seus olhos transmitiam uma dissimulação que eu provavelmente não alcançarei nunca, e não soube definir se o giro com a camisola hospitalar, aquelas feitas para que não se sinta calor nas costas, foi um ato de ausência de malicia, ou uma jogada de mestre para me desestabilizar.
- Vou arriscar quinze. – Disse cruzando os braços e semicerrando os olhos.
- Se você diz que tenho quinze eu tenho quinze então. – Ela disse dando de umbros com um sorriso e fechando os olhos, ela transpirava inocência.
- Agora senhorita…
- Me chame de Lu.
- Luciana, Luana, Luara? Seu giro me deu certeza que você não nasceu Lucas. – Eu disse, ela desviou o olhar e cobriu o rosto com as mãos… sem corar.
- Esse é um jogo onde movimentos errados custam caro, não queira competir comigo. Mas assim que você recuperar a fala, gostaria que respondesse se acertei. – Enquanto eu falava, ela baixou as mãos o suficiente para descobrir os olhos e lançar um olhar de corça pega em uma armadilha. E seus olhos castanhos eram ideais para esse olhar.
- Não, mas responder todas as perguntas de cara tiraria toda a graça. – Ela disse tirando as mãos da face com uma expressão que me fazia custar a acreditar que há um minuto ficara envergonhada.
- Bem, eu estou aqui porque tentei por em pratica o “I believe I can fly”, mas e você? – Eu disse dando de ombros, e descobrindo que tinha ao menos duas costelas quebradas.
- Acidente com faca. – Ela disse enquanto mostrava os dois pulsos com ataduras, e um sorriso divertido.
- Bem, eu já vi maus cozinheiros cortarem os dedos, mas pra acertar ai você teria que ser péssima.
- Na verdade era para uma foto pro Orkut, mas como tinha acabado o catchup tive de improvisar.
- Épico. Agora, já que você está mais inteirada do que eu, qual foi o saldo do meu vôo?
- Um fêmur e quatro costelas.
- E o motorista?
- Do lado de fora com o orçamento do funileiro.
Nós dois rimos, ela tinha um humor adoravelmente mórbido, eu esperava ficar internado um bom tempo.
Lu preferiu ir embora um pouco antes de minha mãe chegar, ela parecia ter a capacidade sobrenatural de detectá-la.
Com alguma lábia a convenci que alguns poucos ossos não eram motivo para que ela ficasse do lado, ela já dormia demais em hospitais, assim ela só viria quando eu precisasse de roupas, ou para visitas a cada três dias.
Ela me prometeu que traria algo possível de engolir quando viesse, afinal a comida do hospital tinha o sabor de um papelão molhado de alta qualidade. E comentou que varias pessoas perguntavam sobre mim e se dispunham a me visitar.
A noite Lu voltou.
- Feliz em me ver?
- Muitíssimo?
- Verdade? – Sua face se iluminou.
- Claro! Você levou o controle da TV quando saiu. – Senti o quarto se escurecer com a nuvem de ódio.
- Que cruel! Sabe o quanto ando para te ver?
- Falando em andar, amanhã passo a receber visitas.
- Hm. – Ela disse, acompanhando um pernilongo com a cabeça até ficar de costas.
- Preciso saber se consigo levantar e se você mostra um bom lugar pra passarmos o tempo juntos.
Mesmo de costas, eu pude sentir que um sorriso se abria em seu rosto.
- “Passarmos juntos”? Deu uma sensação engraçada ouvir isso.
- Acho que essa sensação é o vento sudoeste que você está levando embaixo. Sabe o que são calças? – Ao ouvir isso ela em um pulo ficou de frente para mim, com as mãos fechava a parte de trás da camisola, enquanto baixava a cabeça evitando olhar para mim.
Após três ou quatro tentativas mal sucedidas, concordamos que eu teria de receber as visitas.
As visitas no primeiro dia foram várias, parentes, amigos e alguns outros mais por protocolo que por ligarem de fato. Findo o horário de visitas Lu chegou com um amontoado de cartas. Após algumas partidas inocentes de buraco, sugeri pôquer, que ela afirmou não saber jogar. Me dispus a ensiná-la.
Após uma partida explicativa, e duas com erros típicos de principiantes, ela sugeriu apostarmos prendas (pequenos castigos) ela sugeriu que seriam coisas pequenas, que podiam se acumular em médias se chegassem a dez, e que cinco medias perfaziam uma grande.
Ou fui tapeado, ou estava diante de um prodígio, pois ela não caiu em nenhum dos meus blefes, e não escapei a nenhum dos dela.
Terminei a noite com direito a duas prendas médias, ela com uma grande e meia.
- Pois bem, aposta é aposta, farei o que você mandar. – Eu disse dando de ombros e novamente lembrando das costelas. Ao ouvir isso ela ficou de costas pondo as mãos no rosto.
Após a partida de pôquer eu já sabia que estava lidando com uma mentirosa excepcional, mas ainda assim adorava essa postura de garota inocente.
Após alguns segundos se debatendo enquanto eu observava que ela não atendeu meu conselho sobre calças, ela se virou com uma expressão decidida estampada em seu rosto delicadamente esculpido.
- Sabe. O que vou querer é… - Ela falou com uma expressão alegre e cheia de significado, quando a porta se abre com força.
- Você não deveria estar aqui. – Um homem com no mínimo trinta anos, porte militar, cabelos de um castanho claro ou loiros cortados a maquina, usando um sobretudo e coturnos aparece na porta. Lu virou de imediato para ele, eu poderia jurar que por um instante eu vira um lampejo vermelho em seus olhos.
- Olá Miguel irmãozinho. Esperava que me achasse, mas podia ter demorado mais alguns minutos né? – Lu fala olhando para ele com um sorriso sem jeito, ela olha para mim e sai andando em direção a porta, quando ela passa, Miguel começa a fechá-la.
- Um conselho para sua própria segurança. Mantenha a distancia. – O homem de nome Miguel disse, sua expressão era agressiva, mas o ódio em sua voz não parecia direcionado a mim.
Eu adormeci, para acordar apenas no amanhecer do dia seguinte.
O dia foi calmo, recebi a visita de Bento o padre da igreja da vizinhança, por algum motivo (talvez o habito de andar com aquela camisola) fez com que Lu e o padre se estranhassem muito, ainda que ambos tenham sido educados o suficiente para não verbalizar isso.
Admito que os dois interagindo era divertido, o padre apesar de seus quase oitenta anos próximo a ela se mantinha ereto, para poder ficar mais alto. Lu por sua vez fez de tudo para que pequenos acidentes tirassem o velho clérigo do sério.
Em determinado momento Lu disse que precisava beber água, e saiu do quarto.
- Sua amiguinha é bem peculiar meu filho.
- Ela é bem divertida, tenho certeza que vocês se dariam bem se tentassem.
- Para ser franco jovem, eu duvido disso, há algo perturbador nela, algo que jamais senti sobre qualquer pessoa.
- Bastou tentar puxar uma vez a cadeira quando você tentou sentar que você já a condena ao inferno.
- Longe de mim julgar qualquer um. A mim não cabe condenar ou absolver, apenas orientar.
- E você tem uma orientação para mim?
- Orientação que sei que você não vai seguir. Por isso, prefiro que você atenda a um pedido meu.
- Hm, envolve reza? – Disse me mexendo desconfortável no travesseiro.
- Não exatamente, quero que enquanto estiver aqui, use isso. – Ele disse enquanto tirava do pescoço um terço de prata. Fiquei tentado a fazer uma gozação sobre voto de pobreza, mas o momento não permitia esse comentário.
- Não faço o tipo religioso.
- É prata, sei que gosta de coisas brilhantes. – Ele disse enquanto estendia para mim o terço. Hesitei, mas… maldição, ele está certo, minhas mãos foram atraídas pelo metal como um imã.
- Obrigado, devolvo quando sair do hospital. – Eu disse enquanto colocava no pescoço e em seguida para dentro da roupa.
- Não demore. Na minha idade cada dia vivo é um milagre. – Ele disse levantando da cama e fazendo um breve prece sobre meu leito.
- Não seja dramático, milagres são seu oficio, você não me daria isso se não soubesse que sairei daqui bem antes deles acabarem. – Enquanto eu falava ele caminhava até a porta. Ao abrir, vi Lu, com seu irmão Miguel a segurando pelo ombro, ela entrou assim que o padre saiu conversando com Miguel.
Assim que a porta se fechou Lu se virou para a porta e mostrou a língua como uma criança de cinco anos faria, ela correu para perto da minha cama logo em seguida.
- Finalmente livre daquele chato! – Disse olhando com o canto dos olhos para a porta.
Não pude conter o riso com essa franca demonstração de criancice. Ela apenas agora voltou a atenção dela para mim.
- Fiz algo engraçado?
- Essa sua postura de criança mimada tem lá seu lado cômico.
- Hm. Sabe, crianças mimadas tem que ser educadas para não se tornarem pessoas desagradáveis. – Ela disse, se inclinando sobre mim, e novamente pude sentir seu hálito de menta. Seu rosto estava muito próximo ao meu, eu não via mais do que seus olhos e o inicio da bochecha.
- Quem sabe você consiga pensar em algo que me endireite, afinal você tem duas prendas de saldo, e terei de obedecer… - Ela disse, eu já sentia sua respiração em meu rosto, ela estava apoiada nas minhas costelas, mas a dor parecia algo muito sem importância no momento.
- Por outro lado… - Seus lábios encostaram no meu, e pude sentir o sabor da menta enquanto o beijo era dado e sua mão descia pelo meu peito. Foi quando ouvimos alguém dando uma tossida para limpar a garganta na porta. Lá estava Miguel, de braços cruzado e um olhar duro.
- … acho que farei você gastar seus dois pedidos em mais dois desses. Ou mesmo mais que isso pelos dois. – Ela disse, se afastando da cama, ainda com a mão em meu peito e eu sentindo nitidamente as costelas quebradas.
- Saia. Falarei com ele um pouco. – Miguel disse olhando para mim, Lu apenas passou por ele olhando para o outro lado, ela parecia feliz demais para dar atenção ao que o irmão dizia.
Assim que Lu saiu ele chegou até próximo de meu leito e sentou-se no sofá reservado as visitas, ele emanava uma aura de disciplina tão forte que inconscientemente me recostei na parede para sentar-me ereto.
- Conversei com Bento sobre você.
- A imagem que ele tem de mim não é das mais exatas.
- Ele disse que apesar de reticente com a religião, é um rapaz de bom coração.
- Sabe menos do que pensei.
Admito que não esperava que ele risse do comentário, mas esperava qualquer reação, contudo ela nunca ocorreu, o comentário passou batido.
- Você tem o perfil ideal para ela, uma boa alma e indisciplinado o suficiente para se corromper.
- Você não tem uma imagem muito boa da Lu né?
- Não sou eu que a conheço há tres dias.
- Um a zero.
- A ligação entre vocês ainda não é muito forte, se afastar agora evitaria muito sofrimento.
- Sofrimento? Tem sido os dias mais divertidos da minha vida! E ela parece estar curtindo também. – Comecei a altear a voz.
- Pode crer que ela está se divertindo…
- Olha, não vou com a sua fuça e já vi que é mutuo…
- Não nutro qualquer antipatia em relação a você. – Ele me disse totalmente calmo, olhem bem fundo em seus olhos, que percebi serem de um tom acobreado, e vi que ele falava a verdade, não vi o desprezo dirigido a alguem incômodo, mas sim a piedade que se dedica a um moribundo.
- Minha retórica é para estimular tropas, não convencer alguém a não pular de um precipício. Não acreditei que o convenceria, mas espero que ao menos você se dê ao trabalho de olhar tudo com mais senso critico. – Ele se levantou ainda com os olhos em mim, talvez ainda tivesse algo a dizer, mas após um longo suspiro optou apenas por balançar a cabeça e sair.
Fui levado para o banho por uma enfermeira velha, gorda e que parecia não entender ou não ligar que eu tivesse quatro costelas fraturadas.
Quando retornei ao quarto encontrei Lu dormindo no sofá de visitas, foi um contraste agradável aquela pele macia, branca e de bochechas rosadas deitada no sofá, quando na ultima hora fui esfregado pelo Jaba the Hutt.
Enquanto eu me encarregava de pular da cadeira de rodas para a cama, a enfermeira cutucava Lu para acordá-la.
- Você! Ei, acordando garota! – Ela dizia enquanto cutucava Lu, pude ver por entre as pernas da enfermeira que Lu se sentava agora.
Não vi o que aconteceu, apenas ouvi um “suma” sendo murmurado e a enfermeira recuando alguns passos antes de pegar a cadeira de rodas e sair a passos largos.
Lu se voltou para mim com uma expressão sonolenta.
- Miguel é um irmão muito mau, terminou de falar com você e nem me avisa. Quando eu finalmente soube, você já tinha ido para o banho. – Ela disse fazendo biquinho e esfregando o olho com o punho.
Era obvio que ela não adormecera, era só ela agindo como uma garotinha meiga.
Foi quando lembrei do pedido de Miguel, não era difícil crer que essa não era a verdadeira face de Lu.
Ela intimidara com o olhar o filhote mais feio do Godzilla, coisa que precisaria de alguma pratica.
Mas eu estava lidando com uma linda psicopata? Ou com uma garota de má personalidade tentando passar uma boa impressão?
Ela tentou conversar comigo por meia hora, contudo, como eu estava mais atento ao significado das palavras que as palavras em si, acabei não oferecendo uma conversa muito envolvente, o que a fez desistir logo, ela disse estar com sono e se retirou.
Passei boa parte daquela noite pesando o que se passava, o que poderia e o que não poderia levar a sério, e em quem deveria acreditar, a moça que tornava meus dias toleráveis no hospital, ou o irmão dela que parecia temer pela minha segurança, ainda que eu não entendesse o porquê.
Lu não apareceu no dia seguinte, sequer deu qualquer sinal ou recado, o que tornou meu dia um martírio de longa duração, que por pouco na me fez levantar da cama e sair a procura dela.
No dia seguinte ela apareceu após o almoço, como se nada houvesse acontecido. Eu infelizmente deixei transparecer a minha satisfação em revê-la, e antes que eu pudesse disfarçar ela abriu um sorriso de superioridade ou trinfo.
Conversamos sobre tudo um pouco, e quase parti outra costela quando ela começou a imitar perfeitamente Ozzy Osbourne.
Aquele dia passou como um raio, mesmo que eu sentisse que ela me olhava como se procurando algo, ou me medindo.
Em determinado momento, ela pediu para que a televisão fosse ligada, eu concordei sem pensar muito, e como recompensa ela se recostou em meu peito para assistir ao programa. Abracei-a instintivamente,
Enquanto ela passou uma hora assistindo não me recordo o que, eu passei a mesma hora sentindo seu cheiro, e o calor de seu corpo contra o meu. Pude sentir em determinados pontos que era sua pele e não o tecido que tocavam minha pele, pude eu sentir a textura macia de sua pele de encontro a minha, e apenas isto já era inebriante.
Ao fim desta hora, ela se moveu um pouco mais para cima, de modo a ficar cara a cara comigo, e com a cara mais depravada que eu creio que alguém conseguiria fazer, perguntou que coisas divertidas eu queria fazer agora.
Por reflexo olhei para a porta esperando a qualquer momento que Miguel, seguindo a tradição surgisse e interferisse. Contudo, não ocorreu.
Lu olhando também para a porta, soltou uma risada pelo nariz, e tratou de ficar de frente para mim.
- O que você tinha em mente para primeiro verificar se ninguém está vindo hein? – Ela disse com um sorriso que deixava bem claro que eu não precisava responder a pergunta.
Ela do nada comentou sobre a noite de ontem e que ela se lembrava vagamente de ter sido eu que me movi da cadeira de rodas até a cama, portanto ela queria saber se eu já conseguia ainda que com esforço e ajuda sair dela.
Totalmente ciente que ela não perguntava as horas sem algum motivo por trás disso, tentei perguntar. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa ela pôs o indicador da mão direita sobre minha boca enquanto o dedo da mão esquerda repousava sobre seus lábios.
- Se eu disser, vai estragar uma surpresa e tanto, faz esse esforço vai... – Ela disse mudando a expressão de menina sapeca para algo próximo de uma criança pedindo um doce.
Naquele momento eu soube, se ela me levasse para o telhado e pedisse com essa cara para pular, eu provavelmente teria problemas.
Após uma ou duas tentativas, eu consegui me levantar, mas andar pulando doía demais em minhas costelas para fazer, por isso eu dependia dela para me mover. Após andar pelo quarto todo, ela disse que fiz bem e que agora eu podia voltar para a cama.
Conversamos e voltamos a jogar cartas, desta vez Lu parecia pouco preocupada em vencer, o que gerou um aumento equilibrado do saldo de prendas dos dois. Ela foi embora naquele dia nas primeiras horas da noite, e eu após assistir TV até os olhos arderem, adormeci.
Acordei novamente com o cheiro de menta no nariz, quando abri os olhos, vi que Lu estava com o rosto a frente do meu, e apoiada em minha barriga, com cada perna de um lado de meu corpo. Reagi o melhor que meus ferimentos me permitiam, mas consegui apenas que ela caísse para trás e quase me desse um chute na boca enquanto caia no colchão.
Ela apenas ficou um segundo parada, obviamente pelo susto, e logo em seguida agarrou meu braço para me levantar. Pude perceber que era algo em torno das duas da manhã, e que estávamos nos dirigindo para o telhado do hospital.
Chegando lá em cima, para meu alivio, um amontoado de colchões ortopédicos foram amontoados em um canto longe da beirada, próximo estavam alguns alimentos que não vieram do hospital, e logo podiam ser engolidos sem esforço, havia também cinco velas cercando a cama improvisada, duas a direita, duas a esquerda e uma mais próxima a beirada.
Lu sentou-se nos colchões (ou melhor, pulou) e acenou para que eu também sentasse. Me sentei e acompanhei seu olhar que agora estava no céu.
No céu estava a maior Lua que já vi em minha vida, brilhando totalmente em prata.
- Realmente é uma visão e tanto essa noite de lua cheia. Mas por que não me mostrar isso do quarto? – Eu disse ainda olhando a Lua.
- Porque a lua não é a surpresa, e aqui porque eu acho que as coisas importantes dessa vida devem ser feitas a céu aberto. – Lu respondeu, enquanto colocava cada perna de um lado de meu corpo e enquanto me beijava já trabalhava em tirar minha camisa. Contudo, quando sua mão chegou em meu peito ela recuou de imediato, eu a vi escondendo a mão, enquanto eu sentia o rosário em meu peito voltando a encostar em minha pele um pouco mais quente que o usual.
- Você tá bem? – Eu disse, tentando pegar sua mão, mas ela tratou de se afastar de imediato.
- Eu me cortei nesse seu pingente. Desculpa, mas eu não tou mais no clima. – Ela disse, ainda escondendo a mão e se levantando.
Fiquei sentado ainda algum tempo, olhando a Lua e segurando o rosário. Senti que algo muito importante estava acontecendo, só não soube bem o que.
No dia seguinte, Lu voltou já bem cedo, ela parecia um pouco mais apreensiva do que o normal, sempre me olhando com aquele mesmo olhar analítico. Sua mão direita estava enfaixada na palma, mas ela mal parecia se dar conta disso.
Contudo, a todo tempo ela me lançava um olhar de que esperava algo. Algo que eu não sabia, ou ao menos fazia uma ligeira força para não saber.
Continuamos nosso dia como se a noite de ontem jamais tivesse acontecido, mas eu percebi que ela evitava a todo custo o contato corporal.
Os olhares com significado tornavam-se mais longos e mais freqüentes, agora eu me via na obrigação de perguntar se aconteceu algo. Contudo, ela decidiu fazer o primeiro movimento.
- É divertido estar comigo? – Ela perguntou, olhando para a janela ao invés de para mim que estava na cama.
- Pergunta besta. É obvio que é divertido.
- Você se sentiria mal se isso acabasse? – Ainda olhando a janela ela disse, no momento um nuvem cobria o sol.
- Bem, uma hora vai acabar, afinal minhas costelas melhoram bem a cada dia, e nem sei a quantas andam seus pulsos.
- Se eu dissesse que tem como isso não acabar? Que eu ficaria junto de você até você se cansar disso? – Ela disse, olhando pela primeira vez no dia fixamente em meus olhos. Havia um brilho anti-natural em seus olhos. Naquele momento, Miguel entrou pela porta, ele parecia maior do que o colosso que naturalmente era, ele exalava fúria.
- Pare agora Lu… - Miguel disse, Lu se virou para ele com um sorriso, e lhe dirigiu um aceno de mão, Miguel flexionou as pernas e eu vi enquanto seus braços se cruzavam frente o rosto, seus pés atravessarem quinze centímetros do chão.
- Eu quero que você olhe bem. – Lu disse, e eu percebi enfim o porquê desta camisola, quando um par de asas coriáceas saltou de suas costas, salpicando de sangue tudo em sua volta.
- Tudo se resume a esse momento. Eu quero uma alma pura como a sua em meus domínios, e você quer esse corpo para você. Vamos trocar? - Lu caminhou até mim e passou a mão em meu rosto. Senti cada pelo se eriçar.
Entendi neste momento o que foram todos estes dias. Apenas um meio de atrelar minha alma a algo que eu não poderia mais ter longe de mim. Fora uma jogada de mestre.
Isto deve ser um sonho!
Fui considerado ontem por minha tribo um homem, e esta noite já me dão a oportunidade de ser tido como um caçador.
Nos últimos três dias, corpos de irmãos da minha e de outras tribos vem sendo encontrados, e estou no grupo para caçar o que está fazendo isto.
No mesmo grupo estão os melhores dentre todos.
Os gêmeos Mero e Moru, imbatíveis com faca e o tacape; Amã, o caçador que sozinho abateu um grande urso com sua lança; Thae, um pardal a trezentos passos de distancia não estaria seguro contra seu arco.
E Khal... o maior caçador de minha tribo, mesmo sendo apenas cinco estações mais velho do que eu.
Ele lutou ao menos em duas dúzias de batalhas e jamais foi ferido em alguma delas. Já enfrentou só com os punhos um guerreiro com lança e saiu vitorioso.
E está para se casar com Maaka, a filha do chefe e a mais bela mulher em que um homem já pôs os olhos, a mais doce das pessoas, sempre solicita para com quem precise dela, e minha amada irmã caçula.
É engraçado, é quase preciso ameaçar Khal com uma lança para que ele conte sobre seus feitos, mas acho que mesmo que todos nós apontássemos nossas armas para ele, não conseguiríamos fazer ele parar de mostrar o pingente de pedra azul que ela lhe deu.
E mesmo com toda esta energia, ele está pálido e suando muito, talvez fruto do corte causado pela garra de um lobo que enfrentou um ciclo de lua atrás.
Mas mesmo enfermo, me sinto mais seguro com ele aqui.
Após caminharmos um quarto do tempo necessário para a lua fazer seu percurso, chegamos a uma clareira próxima ao lugar dos ataques.
Cada um se ocupou a seu modo. Amã assava um pedaço de carne na fogueira, Thae verificava suas flechas, Khal se encostou em uma arvore e fechou os olhos, Mero e Moru tratavam de discutir quem ficaria com a cabeça de nossa caça, eu me limitava a treinar com a lança.
- Vai acabar furando o olho de alguém com isso, sente e descanse, assim que comermos o resto da noite é corrida. – Amã disse para mim.
- O que é isso Amã! Deixe o jovem praticar, ao menos ele não fará como você em sua primeira caça noturna. – Thae respondeu com um sorriso de escárnio.
- O que ele fez? – Eu perguntei, mas só depois percebi as faíscas de ódio nos olhos de Amã.
- Não te diz respeito! E você cale a boca Thae!! – Amã disse alternando o olhar entre Thae e eu.
- Fomos caçar um gato gigante, quando o encontramos Amã estava tão nervoso que só de ver o bicho já arremessou a lança... com a ponta virada para o outro lado.
Todos menos Amã riram, em outras circunstancias ele chamaria cada um para briga por isso, mas nesta noite se limitou a amaldiçoar.
Pouco depois Khal se levantou e caminhou em direção as árvores para sair da clareira.
- Está indo onde Khal? – Moru que foi o primeiro a notar perguntou.
- Fazer um reconhecimento.
- Ah, pensei que estava indo aliviar a dor de estomago. – Comentou Meru
A resposta veio na forma de uma pedra sendo atirada por sobre a cabeça dos dois.
A carne ficou pronta, comemos mas Khal não voltou.
Decidimos então que apagaríamos a fogueira e iniciaríamos a caçada assim mesmo.
Fui até o fogo, e quando me preparava para chutar terra sobre a fogueira, ouvimos o rosnado.
Todos de imediato viraram a cabeça para o lado de onde veio o som.
Por entre as árvores víamos nas sombras duas brasas flutuando a dois metros do chão.
Todos pegaram suas armas enquanto as brasas desciam a meio metro do chão e ouvíamos junto com o rosnado o som de algo pingando.
Thae disparou sua flecha e de imediato a criatura pulou cinco metros para o alto.
Era o maior lobo que jamais vira, ao menos dois metros de estatura e corpo forte.
Ele aterrissou bem no meio de nós. Assim que tocou o chão, correu em direção a Thae.
Ele teve tempo apenas de pôr outra flecha na corda antes da mandíbula do animal se fechar sobre sua garganta.
Em seguida disparou sobre os gêmeos. Mero preparou sua faca e aguardou o animal pular sobre ele para cravar a arma em sua garganta.
Mas, quando há um metro de Mero, o lobo parou, e desferiu um golpe com a pata esquerda vindo do chão, o golpe não atingiu Mero, mas a terra que veio junto entrou em seus olhos, o impedindo de ver a pata direita que retalhou seurosto.
Mas este golpe abriu a guarda da criatura para Moru, que pulando pela direita desceu a clava... até a pata direita assustadoramente parecida com uma mão humana, que segurou o golpe.
Naquele momento senti meu sangue congelar enquanto eu via a criatura com sua mão esquerda agarrar a cabeça de Moru e esmagá-la, mas o que quase me fez cair de joelhos, foi o lindo pingente com uma pedra azul no pescoço do animal.
Amã deve ter visto o mesmo que eu, pois naquele momento arremessou com um grito sua lança.
A arma descreveu um trajeto em linha reta até a cabeça do animal, que por reflexo pôs a mão na frente, tendo-a atravessada, soltando um uivo audível ao longe.
Mas a mão impediu que a lança chegasse a cabeça, e enquanto a criatura partia com os dentes a outra lança, a minha vibrava em minha mão.
A criatura caminhou até Amã sobre duas patas, e eu em um ato de desespero, arremessei minha lança para ele, que tirou os olhos da criatura para poder ver a arma chegando, mas nessa distração, as garras do monstro subiram, separando Amã de seu braço esticado para pegar a arma.
Estava tudo acabado, eu estava só e desarmado contra o campeão de minha tribo que se tornara um monstro, que derrotara quatro dos melhores caçadores armados e que agora… eu via entrando na clareira de lança na mão erguendo as calças.
Não era Khal o monstro! Só de saber isso eu já tinha vontade de gritar de alegria.
Khal ao ver os restos de seus colegas mortos urrou e correu até a criatura que estava de costas para ele, enquanto isso eu corria até o arco de Thae, a arma mais próxima de mim, fora a lança aos pés do monstro.
Enquanto corria eu me perguntava quem seria a criatura transformada. A resposta veio a mim ao mesmo tempo que a Khal quando ficou de frente para o lobo bípede.
- Maaka… - Ele disse parando e ficando muito pálido.
Minhas mãos tremiam enquanto agarrava uma flecha, e quase sem forças eu empunhava o arco.
Maaka agora se aproximava de Khal que ainda parecia tentar compreender o que se passava.
A criatura se aproximava muito lentamente, o que me fez crer que ainda havia algo de minha irmã naquela abominação. E foi esta certeza que me fez hesitar e quase errar a flecha que disparei.
O alvo era o ponto das costas onde fica o coração. Contudo o tremor causado pelo que vi e por saber que estava prestes a fulminar minha irmã fez as mãos perderem força e precisão, atingindo-a no ombro.
Ela se virou para mim e urrou, eu via em seus olhos apenas ódio e o desejo de destruir aquele que a feriu.
O mais rápido que pude coloquei uma flecha no arco, mas não pareceu ter sido rápido o suficiente, pois Maaka já avançava de quatro ainda que evitando se apoiar no braço ferido.
Maaka já estava quase sobre mim quando Khal pulou sobre as costas dela, derrubando-a no chão, seu olhar era claro: Corra!
Tão rápido quanto minhas pernas permitiam corri até a fogueira e retirei um galho em chamas, no mesmo momento Khal era arremessado ao ar enquanto Maaka se levantava lentamente por causa do braço.
Eu sabia que tinha poucas chances de sobreviver se fugisse, e menores ainda se ficasse e lutasse, cabia a mim então decidir se ao menos eu morreria como um homem.
É heróico dizer “morrer como um homem” discutindo uma situação dessas o que mais chama a atenção é “como um homem”, mas quando se vive se precisa fazer a escolha, só existe “morrer”.
Assim, eu corri, não me orgulho de tal escolha, mas não me arrependo dela igualmente. Aparentemente, Khal também não, pois não demorou, estava correndo ao meu lado.
Aos nossos ouvidos ressoavam os passos de Maaka, que tinha de se mover sobre as duas pernas, graças ao ferimento que causei, e isso me encheu de esperança, pois um lobo não correria mais rápido que um homem em duas pernas.
Para minha infelicidade, não estávamos correndo de um lobo. Assim, o andar de Maaka em duas pernas não era muito diferente do nosso. O que começou com uma caçada para nós, passou a ser uma luta pela sobrevivência e agora um teste de resistência.
Nossas únicas armas eram o arco e as flechas que eu peguei, mais uma faca de cada um.
- Se continuamos nessa corrida, não teremos forças para lutar quando formos alcançados. – Khal disse emparelhando comigo.
- E o que sugere? Eu pessoalmente não estou muito a vontade com a idéia de lutar, e pouco tem a ver com o fato de ser minha irmã e você já que está aqui também não possui essa vontade.
- Não sabemos se é… - Ele disse com um olhar duro, mas se calou ao perceber que nenhum de nos acreditava no que ia dizer.
- Acha que nós dois conseguiríamos detê-la? – Perguntei, ainda na dúvida se teria a coragem para isso.
- Atrasá-la. Talvez o bastante para o outro chegar ao rio e fazê-la perder a trilha.
Eu o olhei, não restava dúvida de que ele tinha razão, mas por que ele estava comentando isto? Ele tinha esperanças de me convencer a ficar? Ou queria o arco para a luta?
- Eu tenho uma irmã sabia? – Ele disse.
- Eu sei. Somos da mesma tribo. – Eu disse com uma ponta de raiva, que ele pareceu não ter percebido, pois riu.
- Sei disso. Por isso queria te pedir um favor…
Era esse o momento. Ela era minha irmã, então eu que cuidasse dela! Afinal ele tinha a dele para proteger. O sangue me subiu pelo rosto.
- …será que você tem como mandar um recado para ela pra mim? – Ele disse, com um olhar assustado. E eu humilhado virei o rosto e fiz que sim com a cabeça.
- Diga que… eu sinto por deixá-la sozinha, e que conto que ela seja feliz. – Ele com um sorriso melancólico.
- Khal… é minha irmã eu acho que…
- Não seja idiota garoto, você não duraria dois minutos. A noticia tem que chegar na tribo, esse é seu trabalho, até porque ela é sua irmã, e saber disso te torna menos adequado ainda para outro.
- Você vai morrer e deixar uma irmã pra trás?
- Isso é problema meu com os espíritos dos meus pais. Trate você agora de cumprir com a sua parte. – E ao dizer isso ele sacou a faca e parou.
Eu corri, e corri o quanto pude, atravessei o rio, e alguns morros, sem em momento algum ouvir os passos de Maaka, quando acreditei estar seguro, parei para me recuperar.
Sentei-me enquanto os pulmões queimavam, e o ar com muito esforço entrava em meu peito, apenas por reflexo levei a mão as flechas, para descobrir que na corrida, quase todas haviam caído.
Meu coração naquele momento quase parou. Quais as chances de isso ter acontecido aos poucos e uma trilha ter se formado?
Um rosnado em uma parodia a uma risada me veio como resposta. Eu fiquei de pé e pus minha penúltima flecha no arco. Enquanto no topo dos galhos um par de brasas me observava.
Eu estava cansado, sabia que agora eu era a caça, eu ia ser devorado, mas decidi… ao menos ia causar uma indigestão.
Os olhos mal se moviam, assim como o meu braço com a flecha no arco. Agora era uma questão de paciência, meu pai perderia um filho ou filha essa noite, tudo dependia de uma flecha.
Um galho estalou, e no mesmo instante ela saltou das copas sobre mim, e minha flecha saltou do arco em direção a ela.
Tudo não demorou mais do que um segundo, não havia porque demorar mais. A flecha entrou, de encontro ao coração, não fui eu a presa.
Isso foi um ciclo de lua atrás. Fui aclamado como herói, sou chamado agora de caçador após ter conseguido me arrastar do lugar onde tudo ocorreu até próximo o suficiente da aldeia para ser encontrado.
Eles não sabem o que houve lá alem do que contei. Só que algo mau levou a vida de vários bravos e de minha irmã. Que todos lutaram bravamente, que Khal se portou como um homem e se sacrificou, e só por isto estou vivo.
Para que lhes dizer mais do que isto? Palavras são vazias quando os olhos recebem provas suficientes. E eles não precisarão de mais provas, pois hoje é noite de lua, e eu sou um caçador, assim como minha irmã. E logo minhas presas saberão disso.