Eram apenas uns sete ou oito metros. Distância que poderia ser vencida em poucos passos,
mas não havia o que dizer. Ao menos não ali, naquele momento.
Eram os sete ou oito metros que separavam nossos corpos e nossas vidas.
Os malditos sete ou oito metros que a afastavam do meu toque com facilidade, uma vez que
seu espírito e o meu já andavam distantes há muito tempo. E nem por isso a dor da separação,
ou a física, foram menores.
Seu semblante era sereno ao me encarar, e um sorriso angelical não saia de seus lábios
mesmo durante a despedida e aquela rápida olhada em volta, para registrar um pouco mais de
detalhes de tudo, antes de nunca mais ver nada.
Pude ler em seus lábios um “Por favor, não chore”, quando meus olhos marejaram, seguido
daquele sorriso que cativou-me quando tinha ainda os meus quatorze anos.
Seu último toque em minha face ainda ardia incandescente enquanto as memórias de todos
os toques que nunca tive vinham à tona, como que para lembrar-me que agora era definitivo e
eu não os sentiria nunca.
Minha visão aos poucos ocupava-se de captá-la por completo. Só então eu havia reparado o
quanto ela estava mais magra e o quanto suas curvas mantinham-se salientes mesmo assim,
e que aquela franja, alvo de todo o meu ódio, desaparecera dando lugar a um corte de cabelo
que tirava parte de sua aparência inocente deixando seu rosto com ares de mulher.
O mundo a minha volta resumia-se a borrões vertiginosos regados de lágrimas e ruídos
ininteligíveis enquanto o sorriso dela colapsava e tornava a surgir momentos depois. Todos
os movimentos da nossa aproximação pareciam em câmera lenta, tamanha a velocidade que
minha mente processava tudo que eu via.
Segundos pareciam-me horas.
Alguém ao meu lado balbuciava “desta vez não tem volta!” e “acho que é melhor assim”. Eu
tinha vontade de partir-lhe a coluna.
Talvez, e apenas talvez, eu devesse ter tentado transpor aqueles últimos sete ou oito
centímetros que separava agora nossos rostos e tentado dizer a ela o que eu deveria ter
dito absolutamente todos os dias da minha vida. E talvez eu pudesse ouvir o que sonhei pelo
menos uma única vez. Jamais saberei
E então, no final destes quase quarenta segundos, já sem controle das minhas extremidades,
agora geladas, meus sentidos sumiam um a um. Minha audição desaparecera totalmente
após ouvir o primeiro trovão da chuva que agora caia enquanto eu sentia apenas o gosto e
o cheiro do meu próprio sangue. Meu tato desapareceu bem mais lentamente, o que me
permitiu sentir ainda um último afago abrasador de suas delicadas mãos de dedos longos em
meus cabelos soltos e abertos como num leque pelo chão. Minha visão teimava em manter-se
viva, como que se recusando a abdicar da última imagem, mas era inevitável, e aos poucos as
cortinas negras foram se fechando em torno dela. Não tenho certeza se pude ler uma frase em
seus lábios, quando só seu rosto ainda era visível.
“Sim... Eu também amo você...”
Alucinando ou não, eu sorri.
By Nightserenade
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