Uma tarde com Lúcifer
Tive um encontro com Lúcifer hoje à tarde, e confesso que foi uma conversa deveras agradável. Ele me disse que o inferno anda em baixa, e as boas almas que vão para lá já não são tão boas assim.
Bastante simpático ele, ao final da conversa eu já o chamava de Lú e ele me chamava Demmy. Falamos de tudo um pouco. Política, economia, carros, mulheres, música, Deus, religiões, céu, inferno, arte e mais outros que não me recordo... Pelo que entendi, lá é preciso que haja certa quantia de almas boas com sentimentos puros, para manter as estruturas dos Nove Círculos, Três Vales, Dez Fossos e Quatro Esferas de pé, e são estas as que faltam por lá.
Lú me propôs um passeio até o seu palácio em Judecca, no Cocytus e claro que eu não fui. Não por ele ser o Diabo em pessoa e querer me levar para o Inferno, mas por que eu achei mais interessante continuar no meu quarto ouvindo um rock n’ roll do que viajar do Limbo até o Malebolge e de lá até o Nono Círculo. Mas eu agradeci com toda a educação que minha virtuosa mãe me deu.
Em certo ponto da conversa, Lú me disse que veio atrás de minha alma, como eu suspeitava, mas não simplesmente a tomou de mim por que “foi com a minha cara”. Disse-me que um coração tão cheio de amor verdadeiro por uma mulher como o meu poderia sustentar as estruturas infernais por alguns séculos! Veja só, afinal amar aquela garotinha desde meus quatorze anos valeu-me um lugar no inferno!
Recusei com veemência a segunda proposta do dia, que consistia em oferecer minha alma de bom grado a ele e ter cem milênios de comando e plenos poderes nas dependências do seu reino de eterna perdição. O que eu iria fazer no Inferno afinal? Comandar um bando de debilitados? E decidido como eu estava, fomos jogar um pôquer com as fichas que ganhei de aniversário do meu irmão e me surpreendi ao ver que o Pai da Mentira, o Senhor do Blefe era um belo pato no carteado! Há!
Eu o venci tantas vezes que decidi apostar o que ele tanto queria, eu não ia perder mesmo. Lúcifer não consegue segurar um par de Valetes sem dar um sorriso de viés extremamente perceptível.
Após vencê-lo no carteado Lú disse abertamente que não desistiria até levar minha alma com ele ao Inferno, e me propôs uma série de desafios. Claro que se eu falhasse, ele teria seu prêmio, e eu aceitei mesmo assim. Escrevi um soneto baseado no amor que sinto por aquela garotinha que, modéstia extrema, superou com folga aqueles versos brancos e sem métrica que ele escreveu. O refrão e o solo da música que compus para a ela foram suficientes para subjugar sua guitarra devassa que estuprava meus ouvidos com riffs pesadíssimos, mal trabalhados e até no par ou ímpar ele perdeu. Inevitavelmente cheguei à conclusão de que ele me superaria somente em tamanho de ego, força bruta e número de garotas conquistadas numa única noite, por que se tinha algo que eu não podia negar era que aqueles cabelos louros, longos e lisos, os olhos azuis e sua pele de bumbum de neném aliados aquela lábia infernal fariam a maioria das garotas rastejarem por ele.
Lú reclamou bastante e me perguntou por que eu era tão fiel a um amor que nunca me foi correspondido. Eu não soube responder. Surpreso, ele voltou à antiga compostura e continuamos nesta discussão, sem chegar à conclusão nenhuma. Nem mesmo tal entidade compreende o amor, apesar de usá-lo como gasolina demoníaca!
Perguntou-me como era a garota, mas não quis ver nenhuma foto dela quando ofereci. Queria ouvir de mim a descrição, pois “adorava coisas açucaradas”. Francamente! Ocupei-me então em descrever cada detalhe do seu cabelo castanho repicado, dos seus olhos grandes e expressivos, de sua baixa estatura e trejeitos de adolescente. Mesmo aquela franja que eu tanto desaprovo foi alvo de descrições milimétricas com grande exultação. Só não falei nada quando ele me perguntou do tamanho das coxas dela.
Por volta de sete horas da noite minha mãe me chamou para jantar. Pedi a ele que permanecesse no meu quarto, e quando voltei o vi entrando pelo Portal do Inferno. Sempre achei que o portal era em Jerusalém... Ele sequer se despediu, mas seu “bilhete” marcado a fogo na caixa acústica do meu violão se fez visível e dizia: “Qualquer hora eu apareço de novo. Espero que reconsidere minha proposta, senão terei de pensar em outra mais tentadora.”.
Fico imaginando se “mais tentador”, para Lú, é sinônimo de “tenha-a em troca de sua alma”. Se for isso talvez eu até aceite, mediante nova barganha, é claro.
Mas por hora, meu único vínculo com o inferno é a frase escrita no Portal, que foi parar no meu MSN.
Cetim
Foram anos sem notícias. Admito que após tanto tempo vê-la tão bonita assim foidesconcertante tanto quanto seu rosto banhado em lágrimas. Seu vestido era de um cetim
muito negro que contrastava com sua pele branca e ostentava um avantajado decote.
O único presente na sala além de nós continuava naturalmente indiferente à minha chegada.
Ele não me perturbou.
Ela me abraçou do mesmo jeito que me abraçara da última vez e eu pude sentir o amor que
ela irradiava. O mesmo amor que energizava seus braços com tamanha força de vontade de
me quebrar as costelas ou deslocar uma vértebra.
Alisei seus cabelos e o cetim negro até a barra, reparando em como seu corpo se tornara
escultural e como despertava em mim velhos sentimentos nunca antes atendidos. Ela nem
percebeu.
Ao libertar-me de seu aperto sufocante, ela sorriu um pouco e tentou enxugar o rosto. Deixei
de tocá-la, no entanto, só quando finalmente demos atenção ao terceiro que se fazia presente
e nos espreitava do meio da sala.
De fato ele não despertou em mim interesse algum, enquanto ela fitava seu rosto com uma
expressão que se assemelhava a uma máscara rachada, sóbria, mas que permite entrever as
emoções do mascarado. As emoções que consegui ler em seus lapsos de autocontrole eram
uma mescla de dor, amor e desamparo.
Talvez eu deveria te-lá abraçado-a invés de ficar apenas olhando deslumbrado. Depois de
tanto tempo eu não conseguia tirar os olhos dela, como se meu cérebro quisesse registrar
cada detalhe de seu corpo numa tentativa de recuperar o tempo perdido. Tornara-se tão linda
que eu poderia apostar que, se o vestido de cetim não a denunciasse, ela poderia se misturar
àqueles anjos de mármore e confundir olhos desatentos.
- Eu gostaria de vê-la usando, ou não, este vestido mais vezes. – eu disse com algum humor.
- Suas piadas continuam ruins e inoportunas. Eu jamais vou usá-lo novamente! A menos que
eu vá matá-lo assim que... – rebateu ela, enquanto seu rosto passava da raiva à culpa ou
arrependimento. Não consegui lê-la com exatidão desta vez.
- Não seria uma maneira ruim de morrer, mas você não seria capaz de viver após matar quem
tanto te... Consolou, anos atrás. – Não que debochar de situações assim fosse um hobby meu,
mas definitivamente ela pediu por essa!
- Você deveria ir. Tem seus próprios problemas para cuidar e não vou tomar seu tempo.
Obrigado por vir. - e deu-me as costas num nítido sinal de dispensa, aproveitando para
esconder o rosto marcado por novas emoções que afloravam.
- Eu voltei para você hoje, não voltei? O tempo com você é bem gasto. – disse eu aos sussurros
em seu ouvido, enquanto acariciava-a e descobria que ela ainda era tão sensível.
- Idiota...
Dito isto, beijei-a e reuni todas as minhas forças para sair do velório de nosso pai. Para sair
de perto dela. Ela não protestou, mas eu senti seu olhar nas minhas costas como dois punhais
enquanto ela remoia nosso passado.
Fora de lá, absorto, eu refleti sobre o passado e os últimos cinco minutos ou dez. “Era correto
sentir-se assim, mesmo depois de quase uma década?” Fosse ou não, volta não tinha e mudar
as coisas é que estava fora de cogitação. Logo, eu não precisava filosofar inutilmente.
De qualquer forma, adorei-a naquele vestido.
40 segundos
Eram apenas uns sete ou oito metros. Distância que poderia ser vencida em poucos passos,
mas não havia o que dizer. Ao menos não ali, naquele momento.
Eram os sete ou oito metros que separavam nossos corpos e nossas vidas.
Os malditos sete ou oito metros que a afastavam do meu toque com facilidade, uma vez que
seu espírito e o meu já andavam distantes há muito tempo. E nem por isso a dor da separação,
ou a física, foram menores.
Seu semblante era sereno ao me encarar, e um sorriso angelical não saia de seus lábios
mesmo durante a despedida e aquela rápida olhada em volta, para registrar um pouco mais de
detalhes de tudo, antes de nunca mais ver nada.
Pude ler em seus lábios um “Por favor, não chore”, quando meus olhos marejaram, seguido
daquele sorriso que cativou-me quando tinha ainda os meus quatorze anos.
Seu último toque em minha face ainda ardia incandescente enquanto as memórias de todos
os toques que nunca tive vinham à tona, como que para lembrar-me que agora era definitivo e
eu não os sentiria nunca.
Minha visão aos poucos ocupava-se de captá-la por completo. Só então eu havia reparado o
quanto ela estava mais magra e o quanto suas curvas mantinham-se salientes mesmo assim,
e que aquela franja, alvo de todo o meu ódio, desaparecera dando lugar a um corte de cabelo
que tirava parte de sua aparência inocente deixando seu rosto com ares de mulher.
O mundo a minha volta resumia-se a borrões vertiginosos regados de lágrimas e ruídos
ininteligíveis enquanto o sorriso dela colapsava e tornava a surgir momentos depois. Todos
os movimentos da nossa aproximação pareciam em câmera lenta, tamanha a velocidade que
minha mente processava tudo que eu via.
Segundos pareciam-me horas.
Alguém ao meu lado balbuciava “desta vez não tem volta!” e “acho que é melhor assim”. Eu
tinha vontade de partir-lhe a coluna.
Talvez, e apenas talvez, eu devesse ter tentado transpor aqueles últimos sete ou oito
centímetros que separava agora nossos rostos e tentado dizer a ela o que eu deveria ter
dito absolutamente todos os dias da minha vida. E talvez eu pudesse ouvir o que sonhei pelo
menos uma única vez. Jamais saberei
E então, no final destes quase quarenta segundos, já sem controle das minhas extremidades,
agora geladas, meus sentidos sumiam um a um. Minha audição desaparecera totalmente
após ouvir o primeiro trovão da chuva que agora caia enquanto eu sentia apenas o gosto e
o cheiro do meu próprio sangue. Meu tato desapareceu bem mais lentamente, o que me
permitiu sentir ainda um último afago abrasador de suas delicadas mãos de dedos longos em
meus cabelos soltos e abertos como num leque pelo chão. Minha visão teimava em manter-se
viva, como que se recusando a abdicar da última imagem, mas era inevitável, e aos poucos as
cortinas negras foram se fechando em torno dela. Não tenho certeza se pude ler uma frase em
seus lábios, quando só seu rosto ainda era visível.
“Sim... Eu também amo você...”
Alucinando ou não, eu sorri.
mas não havia o que dizer. Ao menos não ali, naquele momento.
Eram os sete ou oito metros que separavam nossos corpos e nossas vidas.
Os malditos sete ou oito metros que a afastavam do meu toque com facilidade, uma vez que
seu espírito e o meu já andavam distantes há muito tempo. E nem por isso a dor da separação,
ou a física, foram menores.
Seu semblante era sereno ao me encarar, e um sorriso angelical não saia de seus lábios
mesmo durante a despedida e aquela rápida olhada em volta, para registrar um pouco mais de
detalhes de tudo, antes de nunca mais ver nada.
Pude ler em seus lábios um “Por favor, não chore”, quando meus olhos marejaram, seguido
daquele sorriso que cativou-me quando tinha ainda os meus quatorze anos.
Seu último toque em minha face ainda ardia incandescente enquanto as memórias de todos
os toques que nunca tive vinham à tona, como que para lembrar-me que agora era definitivo e
eu não os sentiria nunca.
Minha visão aos poucos ocupava-se de captá-la por completo. Só então eu havia reparado o
quanto ela estava mais magra e o quanto suas curvas mantinham-se salientes mesmo assim,
e que aquela franja, alvo de todo o meu ódio, desaparecera dando lugar a um corte de cabelo
que tirava parte de sua aparência inocente deixando seu rosto com ares de mulher.
O mundo a minha volta resumia-se a borrões vertiginosos regados de lágrimas e ruídos
ininteligíveis enquanto o sorriso dela colapsava e tornava a surgir momentos depois. Todos
os movimentos da nossa aproximação pareciam em câmera lenta, tamanha a velocidade que
minha mente processava tudo que eu via.
Segundos pareciam-me horas.
Alguém ao meu lado balbuciava “desta vez não tem volta!” e “acho que é melhor assim”. Eu
tinha vontade de partir-lhe a coluna.
Talvez, e apenas talvez, eu devesse ter tentado transpor aqueles últimos sete ou oito
centímetros que separava agora nossos rostos e tentado dizer a ela o que eu deveria ter
dito absolutamente todos os dias da minha vida. E talvez eu pudesse ouvir o que sonhei pelo
menos uma única vez. Jamais saberei
E então, no final destes quase quarenta segundos, já sem controle das minhas extremidades,
agora geladas, meus sentidos sumiam um a um. Minha audição desaparecera totalmente
após ouvir o primeiro trovão da chuva que agora caia enquanto eu sentia apenas o gosto e
o cheiro do meu próprio sangue. Meu tato desapareceu bem mais lentamente, o que me
permitiu sentir ainda um último afago abrasador de suas delicadas mãos de dedos longos em
meus cabelos soltos e abertos como num leque pelo chão. Minha visão teimava em manter-se
viva, como que se recusando a abdicar da última imagem, mas era inevitável, e aos poucos as
cortinas negras foram se fechando em torno dela. Não tenho certeza se pude ler uma frase em
seus lábios, quando só seu rosto ainda era visível.
“Sim... Eu também amo você...”
Alucinando ou não, eu sorri.